N/A: Retomando os “50 títulos” após muito tempo ausente. Eu não costumo usar títulos em inglês, mas esse, em especial, me agrada. É o trecho nome de um poema da Mamãe Ganso – trecho muito famoso e bastante usado (Mais informações, na Sessão Curiosidades do blog). Vou ressaltar que não usarei a canção como base, apenas esse pequeno trecho, que significa “E não restou nenhum”.
Boa leitura e obrigada!
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Estamos só nós nesta casa. Ela é muito velha e eu me escondo no que um dia foi um armário. Sinto uma aflição imensa ao olhar pela pequena “janela de respiração”, com seu enegrecido gradeado, feito de ligas de metal transversais que se cruzam. Lembra-me filmes de terror. Esse lugar é muito pequeno para conter esse ódio sem precedentes que sinto.
Graças a você, não restou nenhum… Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum consolo, nenhum princípio, nenhum pudor, nenhum misero resquício de bondade ou de lucidez ou de amor. Não restará mais nada quando nos encontrarmos.
Eu sinto como se não pertencesse mais ao Mundo dos Vivos. Minha alma foi embora e restou somente o animal ferido e raivoso. Eu fui me perdendo aos poucos, cada parte dilacerada foi sendo abandonada pelos cantos deste nosso campo de batalha. Em cada trincheira de minha mente, uma lembrança que foi arrancada de mim, uma pessoa que amei demais, um sentimento puro do qual tenho apenas vaga noção.
Talvez almas sejam como estrelas e, quando morrem, em seu lugar surgem buracos negros que sugam tudo o que estiver em seu caminho. Eu suguei vidas para dentro desse meu buraco negro. Vidas que estavam irremediavelmente ligadas à minha e à dela. Eu tenho em minhas mãos o sangue daqueles que amei.
Ah, se ao menos eu pudesse tê-los de volta!
E pensar que tudo começou com uma rivalidade idiota! Agora, virou um pesadelo! Eu estava só tentando me defender… Mas parece que passei daquela fronteira que separa Dr. Jekyll de Mr. Hyde.
Como eu era antes disso? Como eu vivia antes de devorar existências com minha alma maculada e lácera? Eu sinceramente não me lembro. Não há volta, afinal. Jekyll não conseguiu controlar Hyde. E eu não consigo me controlar mais.
Não quero me recuperar. Quero viver com essas mutilações até os meus últimos dias. Não quero nova chance. Quero me afundar em sangue e podridão, até que eles me sufoquem.
Meus sentidos estão alertas como nunca estiveram antes e cada célula do meu corpo pulsa de expectativa. E eu não consigo imaginar como uma pessoa pode viver sem sentir isso, essa adrenalina violenta que consome aos poucos minha sanidade.
Mas, pensando bem (E eu tenho pensado com tanta clareza e rapidez!), só os moribundos sentem isso. Só os mutilados, os corrompidos, os condenados… Só gente como eu sente isso, porque aquela sensação… Aquela emoção de estar vivo… Nunca mais sentiremos.
Agora somos só nós nesta casa, entretanto, amanhã talvez não reste mais ninguém. Eu vou viver, tenha certeza disso. Viver até terminar com essa palhaçada. Depois…
E depois?
Passos no corredor. Meu corpo inteiro se retesa e eu ouço o grito de guerra de meu ser atormentado. Não, não vai restar nenhum miserável da sua raça para contar história!
Espero e espero. Parece uma eternidade agora.
Uma tábua do quarto range e eu emito um som de animal assustado, porque quero que ele pense que estou morrendo de medo, chorando em um canto.
Posso ver seu sorriso. Posso ver você chegando perto do armário E, quando você está bem perto, posso ver a sua cara quando a porta é empurrada com toda a sua força, atingindo esse belo rostinho odioso.
O soalho rangeu quando o corpo bateu no chão. Ele podia nunca mais ter se erguido, mas eu deixei que o fizesse. Era pra fechar com chave de ouro, pensei, com um sorriso a deformar meu rosto.
…
A tosse faz todo meu tórax doer. Eu venci, mas não vou viver. Não vou e nem quero.
Os ferimentos não doem mais e eu me deixo escorregar pela parede, acomodando-me em um canto. Vejo a luz do sol nascente infiltrar-se no quarto pelas frestas das imensas persianas de madeira.
Meu peito dói porque estou soluçando. Parece que faz séculos que não derramo uma lágrima, e essa é a melhor sensação do mundo.
Eu mereço o pior lugar do Hades, porque não me arrependo do que acabei de fazer. Eu mereceria mesmo que me arrependesse. Mereço, apesar de a dor de meus outros atos ferir-me mais que os cortes.
Não lamento minha morte. Se eu pudesse voltar ao começo, eu mesmo a teria provocado.
As réstias de luz se confundem, se expandem. Não consigo ver. As palavras e pensamentos se embaralham. Não consigo falar. O ar falta e eu o busco em desespero. Não consigo respirar. Não… Não consig…
E não restou nenhum, afinal…
…
N/A: Desculpem, exagerei. Fiquei até com medo. O_O’ Da próxima vez, vou escrever algo mais alegre, prometo!




