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N/A: Retomando os “50 títulos” após muito tempo ausente. Eu não costumo usar títulos em inglês, mas esse, em especial, me agrada. É o trecho nome de um poema da Mamãe Ganso – trecho muito famoso e bastante usado (Mais informações, na Sessão Curiosidades do blog). Vou ressaltar que não usarei a canção como base, apenas esse pequeno trecho, que significa “E não restou nenhum”.
Boa leitura e obrigada!

Estamos só nós nesta casa. Ela é muito velha e eu me escondo no que um dia foi um armário. Sinto uma aflição imensa ao olhar pela pequena “janela de respiração”, com seu enegrecido gradeado, feito de ligas de metal transversais que se cruzam. Lembra-me filmes de terror. Esse lugar é muito pequeno para conter esse ódio sem precedentes que sinto.
Graças a você, não restou nenhum… Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum consolo, nenhum princípio, nenhum pudor, nenhum misero resquício de bondade ou de lucidez ou de amor. Não restará mais nada quando nos encontrarmos.
Eu sinto como se não pertencesse mais ao Mundo dos Vivos. Minha alma foi embora e restou somente o animal ferido e raivoso. Eu fui me perdendo aos poucos, cada parte dilacerada foi sendo abandonada pelos cantos deste nosso campo de batalha. Em cada trincheira de minha mente, uma lembrança que foi arrancada de mim, uma pessoa que amei demais, um sentimento puro do qual tenho apenas vaga noção.
Talvez almas sejam como estrelas e, quando morrem, em seu lugar surgem buracos negros que sugam tudo o que estiver em seu caminho. Eu suguei vidas para dentro desse meu buraco negro. Vidas que estavam irremediavelmente ligadas à minha e à dela. Eu tenho em minhas mãos o sangue daqueles que amei.
Ah, se ao menos eu pudesse tê-los de volta!
E pensar que tudo começou com uma rivalidade idiota! Agora, virou um pesadelo! Eu estava só tentando me defender… Mas parece que passei daquela fronteira que separa Dr. Jekyll de Mr. Hyde.
Como eu era antes disso? Como eu vivia antes de devorar existências com minha alma maculada e lácera? Eu sinceramente não me lembro. Não há volta, afinal. Jekyll não conseguiu controlar Hyde. E eu não consigo me controlar mais.
Não quero me recuperar. Quero viver com essas mutilações até os meus últimos dias. Não quero nova chance. Quero me afundar em sangue e podridão, até que eles me sufoquem.
Meus sentidos estão alertas como nunca estiveram antes e cada célula do meu corpo pulsa de expectativa. E eu não consigo imaginar como uma pessoa pode viver sem sentir isso, essa adrenalina violenta que consome aos poucos minha sanidade.
Mas, pensando bem (E eu tenho pensado com tanta clareza e rapidez!), só os moribundos sentem isso. Só os mutilados, os corrompidos, os condenados… Só gente como eu sente isso, porque aquela sensação… Aquela emoção de estar vivo… Nunca mais sentiremos.
Agora somos só nós nesta casa, entretanto, amanhã talvez não reste mais ninguém. Eu vou viver, tenha certeza disso. Viver até terminar com essa palhaçada. Depois…
E depois?
Passos no corredor. Meu corpo inteiro se retesa e eu ouço o grito de guerra de meu ser atormentado. Não, não vai restar nenhum miserável da sua raça para contar história!
Espero e espero. Parece uma eternidade agora.
Uma tábua do quarto range e eu emito um som de animal assustado, porque quero que ele pense que estou morrendo de medo, chorando em um canto.
Posso ver seu sorriso. Posso ver você chegando perto do armário E, quando você está bem perto, posso ver a sua cara quando a porta é empurrada com toda a sua força, atingindo esse belo rostinho odioso.
O soalho rangeu quando o corpo bateu no chão. Ele podia nunca mais ter se erguido, mas eu deixei que o fizesse. Era pra fechar com chave de ouro, pensei, com um sorriso a deformar meu rosto.

A tosse faz todo meu tórax doer. Eu venci, mas não vou viver. Não vou e nem quero.
Os ferimentos não doem mais e eu me deixo escorregar pela parede, acomodando-me em um canto. Vejo a luz do sol nascente infiltrar-se no quarto pelas frestas das imensas persianas de madeira.
Meu peito dói porque estou soluçando. Parece que faz séculos que não derramo uma lágrima, e essa é a melhor sensação do mundo.
Eu mereço o pior lugar do Hades, porque não me arrependo do que acabei de fazer. Eu mereceria mesmo que me arrependesse. Mereço, apesar de a dor de meus outros atos ferir-me mais que os cortes.
Não lamento minha morte. Se eu pudesse voltar ao começo, eu mesmo a teria provocado.
As réstias de luz se confundem, se expandem. Não consigo ver. As palavras e pensamentos se embaralham. Não consigo falar. O ar falta e eu o busco em desespero. Não consigo respirar. Não… Não consig…

E não restou nenhum, afinal…

N/A: Desculpem, exagerei. Fiquei até com medo. O_O’ Da próxima vez, vou escrever algo mais alegre, prometo!

N/A: “Cidade Dorme” é uma variação da brincadeira “Detetive-Delegado” (ou ao contrário @_@’). Achei mais legal usar essa brincadeira de base pra história, parece mais dinâmico, mais complexo e mais divertido. Bom, mas Detetive-Delegado também é legal, principalmente pra se jogar no intervalo ;)
Se alguém tiver curiosidade, olhe na Wikipédia, mas a primeira parte do jogo será explicada aqui, e as outras partes… Quem sabe não rola uma continuação? :)
Bom, um pavoroso Dia das Bruxas pra todos! E bota pavoroso nisso, já que hoje nós descobriremos quem irá governar nossa pobre terrinha… Independente do resultado, seria pavoroso, horroroso e tenebroso. Ô vida bandida!
E vamos em frente! ;)

“O Juiz fala: “Cidade Dorme” e todos fecham os olhos.”

Era noite de Dezembro, 1988.
Tereza largou-se no sofá de veludo verde-escuro e se espreguiçou como um gato. Encarou a televisão e sua imagem monocromática, ansiosa por mais um capítulo de “Vale-Tudo”. Mas exatamente naquele dia as horas pareciam demorar a passar!
Quase cochilava quando o único telefone da casa tocou (N/A: Era muito difícil conseguir uma linha na época, pois esse serviço não tinha sido privatizado -acho-. Demorava um tempão até você conseguir uma só e olhe lá!), estridente, na mesinha de canto atrás de si. Deu um pulo, virando-se para o aparelho.
“Era só o que me faltava!” – pensou, incomodada, enquanto puxava o fone para perto do ouvido – Alô?
-Tereza? – aquela voz ela nunca ouvira, tinha certeza daquilo!
-Pois não? – questionou, receosa.
-Você quer brincar de Cidade Dorme (N/A: Não sei se essa brincadeira já existia ou se tinha esse nome na época, mas, qualquer coisa, mudo a data.) com a gente?
-Como? – tinha certeza que só podia ser piada! Mas, quem em sã consciencia desperdiçava tempo fazendo aquilo? – Isso deve ser um engano…
-Não é, Tereza. Carla te convidou na última semana de aulas e eu tenho certeza que você virá.
-Ah, sim! Está explicado! Sandra, vai se ferrar, entendeu?! Por que você não pára de encher o saco dos outros e vai dar em cima do namorado de alguém?
-E quem disse que eu sou a Sandra? – a voz mudou do outro lado da linha. Agora era um rapaz falando, mas Tereza ainda não sabia ao certo de quem se tratava! – Está decidido, já sei o que você vai ser! Tenho certeza que a Elizabete vai adorar saber que você vem jogar com a gente também, Tê!
-A Bete? – a moça sentiu o sangue gelar. Engoliu em seco e tornou a falar, a voz baixa e inconstante – A Bete não pode estar aí… Ela disse que não…
-Não viria? Até parece que você não conhece sua própria irmã. – aquela risada maníaca fez com que todos os pêlos de seus braços e pernas se arrepiassem – Você sabe onde nos encontrar. Venha logo, nós mal podemos esperar!
-Q-Quem está falando? – questionou, a voz tremendo.
-Por que você não vem e descobre?
O silêncio do outro lado da linha. O silêncio em sua cabeça. O telefone ao chão. O grito de “Mãe! A Bete fugiu!” entalado na garganta. Dor.
Alisou os cabelos com as mãos trêmulas, sua visão turvada pelas lágrimas. Aquilo não era só mais um trote, afinal? Se era só brincadeira, por que ela estava sentindo tanto medo?
Ela permaneceu estática pelo que pareceram horas, mas tinham se passado apenas alguns minutos quando a campainha tocou. Suas pernas mal conseguiam sustentá-la e Tereza quase caiu diante dos dois à soleira da porta aberta.
Naquele momento, a frase “Nunca vi mais gordo” fez todo o sentido do mundo para ela. Um rapaz ruivo, alto e forte, com uma barba rala, e uma moça magrela, de longos cabelos lisos, tingidos de um tom de louro puxado para o cobre, parados bem diante dela como se a conhecessem há anos.
-’Cê tá bem, cherri? Quer ajuda? – perguntou a jovem, fazendo menção de segurá-la.
-E-eu estou bem, obrigada. – ela encostou-se na parede – E vocês seriam…?
O ruivo abriu a boca para falar, mas o telefone tocou novamente e a garota pensou que desmaiaria. Chegou até a ver o chão se aproximando antes de ser segurada pelo moço.
-Solange, atenda. – falou ele, mecanicamente, aparentemente calmo.
-É pra já!
-Não! – Tereza se desvencilhou do outro e correu até o aparelho, como se não estivesse quase perdendo a consciência há segundos atrás. Hesitou por um minuto, a mão estendida para o fone.
-Posso ouvir também? – questionou timidamente aquela que fora chamada de Solange.
-Po-pode. – gaguejou, sem ter certeza se aquilo era certo. Puxou o telefone com violência para perto do ouvido, enquanto a outra se postava a seu lado – A-alô?
-Tê? Tereza? – aquela voz ela conhecia!
-BETE! Bete, pelo amor de Deus, onde você está?
-Ah, Tê, ‘cê não sabe como eu fico feliz de falar contigo! Tê, por tudo o que é mais sagrado, você precisa ajudar a gente! Algo terrível, Tê, terrível! Você precisava ter visto… Um horror! – ela falava muito rápido, a voz embargada.
-O que é um horror? Onde você está? – ela tinha certeza que estava gritando.
-Você tem que vir, Tê. Tem que vir…
-Por quê? Elizabete!
-Mana, socorro… – e, de repente, a ligação tinha caído!
-RAIOS! – berrou, recolocando o fone no gancho, irada.
Tereza teve de se sentar no braço do sofá para não cair. O ruivo havia se aproximado também, olhando fixamente o aparelho como se soubesse que ele voltaria a tocar em breve.
-Franz… – a outra moça murmurou, ansiosa.
-Só um segundo – respondeu o ruivo.
E, do nada, o telefone estava tocando de novo! Tereza nunca odiara tanto aquela coisa como ela odiava agora. Atendeu prontamente:
-Quem é agora? – perguntou com raiva.
-Cidade dorme. – outra voz que ela não reconhecia.
-Quem é? – perguntou entre os dentes.
-O juiz, ora. E como sendo o juiz, eu determino que vocês três – Pronto! A coisa sabia que havia mais 2 pessoas ali! – Franz, Solange e Teresa, serão nossos detetives, juntamente com…
Ela não estava mais ouvindo. Havia um zumbido atordoante em seus ouvidos e as formas da sala começaram a escurecer e escurecer…

-Pelo amor de Deus, me diga que eu estou sonhando. – murmurou para si mesma assim que abriu os olhos e se viu no banco de trás de algum carro.
-Sinto muito. Se eu disser que preciso que você venha comigo – começou Franz, ignorando o pigarro de Solange, que estava no banco do motorista com o olhar fixo à frente – Conosco sem te explicar nada agora, você viria?
-Eu tenho escolha? Já estou mesmo a caminho de Deus sabe onde!
-Tem. Você pode se recusar a vir, mas aí ele virá atrás de você.
-Droga. Isso parece um filme de terror barato. – resmungou, confusa – Está bem. Estamos indo pra onde e estamos atrás do que?
-Rá! Você não vai nem acreditar, cherrizinha, não vai mesmo – comentou a moça de cabelos tingidos, encarando-a pelo retrovisor. – Pergunte agora quantos de nós sairão vivos ou inteiros de lá. Isso é que é pergunta!
-Por quê?
-Bom, digamos que isso não é só um psicopata. E digamos também que não é só um – começou Franz, como se não soubesse o que dizer. Ele encarou Solange – Se forem só três deles, estamos com pouca sorte já. Aposto que Adriana e Marcelo já estão lá, só espero que estejam lá vivos.
-Céus! O que está acontecendo? – gritou Tereza, impaciente e apavorada.
-Assassinos, acordem e matem. – soprou o ruivo, mordendo o lábio inferior com força.
Ela balançou a cabeça negativamente, como que para despertar de um sonho ruim. Mas aquilo não era um sonho. A cidade ainda dormia. O jogo estava apenas começando.

N/A: Voltando aos temas sombrios (O que não significa que eu seja assustadora pessoalmente XD)
Bom, só uma sugestão: Ouçam “Fixação” (Kid Abelha). Dá um clima legal >D
Boa leitura, fantasminhas! ^^/

~.~.~.~.~.~.~.~.~

“Ela podia se iludir pensando que várias pessoas lhe davam atenção. Era tudo mentira. Não há mais ninguém, só eu.
Eu que sempre observo ela, que sempre ouço e leio e sigo tudo o que ela diz, escreve e faz. Eu que monitoro todos os passos dela com algo que beira a devoção… Mas não pense que a amo. Eu a odeio tanto, tanto, tanto!
Nem todas as boas lembranças do que vivemos são capazes de aplacar o meu rancor, a raiva que eu sinto quando eu vejo no que ela me tornou… Um ser pequenino, miserável e rastejante que vive literalmente dela! Vive o ar que ela respira, o chão que ela pisa!
Reduzido a nada, reduzido à poeira sobre a qual ela pisa. Vivendo para ela, esperando-a todo o tempo, mesmo sabendo que o final é sempre o mesmo: humilhação. Afinal, quem liga pra poeira?
Eu cansei dessa amor maldito que vive travestido de ódio. Cansei de esperar por ela enquanto tramo mil planos para arruiná-la. Cansei de sonhar com ela, sonhar com um minímo carinho dela, ao mesmo tempo em que desejo ardentemente sua destruição.
Eu queria ter forças para submete-la, reduzi-la a menos que um germe, jogá-la na lama da mesma maneira que ela fez comigo. Queria sentir sua fixação, queria senti-la seguindo meus passos, acompanhando meus atos, sonhando com minha completa ruína, enquanto espera que algum dia eu volte a ter olhos somente para ela… Uma utopia! Uma utopia!
Isso nunca acontecerá…
Não haverá um segundo de paz enquanto ela estiver viva. Tenho que pôr um ponto final nisso.
Esses pensamentos me matam! Acaba comigo pensar que não tenho planos para depois… Pensar que não há vida sem ela. Não sei se consigo. Não sei se posso…
Mas, é preciso. Afinal, até a morte é melhor que isso.”

O telefone toca repetidas vezes. Se eu fingir de morta, talvez ele pare, pensou Lídia, remexendo-se na cama. Entretanto, o aparelho continuou tocando e tocando.
Uma palavra pronunciada entre os dentes. Parecia “baralho”, mas definitivamente não era. Ninguém diria “baralho” com tanta raiva…
Ela tocou o telefone e um mau pressentimento passou por seus dedos e percorreu todo seu corpo como se tivesse acabado de levar um choque. Atendeu.
Tudo rápido demais.
Afonso… Ele morreu…? Foi o que o homem do outro lado da linha lhe dizia? Ele morreu? Homicídio? Não somente isso. Suicídio. Uma sobrevivente.
Mas… Espere! Devia ter ouvido mal.
-Repita, por favor.
E o homem repetiu. Lídia ouvira bem.
Não, não, não! Por favor, não me diga isso… Pelo amor de Deus! É engano! Só pode ser engano! Ele não faria mal a uma mosca! Conhecia-o bem, era sangue do seu sangue, foram criados juntos!
Não era trote, nem brincadeira ou sonho. Afonso estava morto de verdade…
Só percebeu que tinha caído quando sentiu o chão sob seu rosto. Não queria se mexer, deixou que gritassem do outro lado da linha.
Quem sobreviveu? Tinha ouvido vagamente um nome… Era o nome dela, da desgraçada. Desde que ela apareceu, só tinha havido desastres.
Não. Eu só posso estar sonhando… Não pode ser real, pensou Lídia, e o mundo escureceu e sumiu diante de seus olhos. E não importava o quanto ela ignorasse aquilo… Era verdade.

 

~.~.~.~.~.~.~.~.~

N/A: Tinha escrito outra versão disso, mas, a internet caiu e eu perdi… Mas, acho que esse ficou até melhor! Afonso, Lídia… Só falta a Raquel e a Maria de Fátima! XD (#ValeTudo)

N/A: A essa altura, eu já deveria ter estudado História e ter ido dormir. Não consigo fazer nem um, nem outro.
Isso faz com que eu me sinta culpada. E só de pensar que ainda faltam 45 temas, é de desanimar… T_T
Tenho pensado muito em Conde Cain ultimamente. A mangaká adorava contos de fada, como eu também gosto. Ao final do post eu explico o que é “Golden Afternoon”.
Bom, boa leitura!

-X_X_X_X_X_X_X-

Era uma manhã cálida de Junho do ano de 1970. Londres parecia tão cheia de vida lá fora, mas dentro daquela casa, tudo estava morto. Até suas lembranças tinham morrido.
Sua pequena musa fugira e a polícia a procurava. Seria sua culpa? Sua e de suas histórias fantasiosas?
Em momentos como aqueles, desejava ter escutado aos conselhos dos demais. Era sempre o mesmo aviso, para o qual ele sempre rolava os olhos:
-Lewis, por favor, não comece com essas suas histórias. A menina é instável, inclinada a ter alucinações.
E a resposta era sempre a mesma:
-Que mal há em entreter um pouco a pobre? Ela sequer pode brincar como as demais crianças por causa da saúde, por que ela não pode sonhar como as outras?
Eles se davam tão bem. Talvez porque não fosse como os demais com quem conviviam.
Que mal havia? Agora ele sabia.
-Blá, blá, blá… Devaneio Psicótico… Blá, blá, blá… Ela confundiu a realidade com a ficção… Blá, blá, blá… – dizia o delegado à imprensa, mas Lewis só ouvia um terço de tudo o que era falado.
Como ele poderia prever o futuro? Como ele poderia saber que ela, aquela menina tão doce e tão frágil, poderia matar quase uma família inteira?
Ele nem viu Lorina se aproximar. Ela tinha sobrevivido por pura sorte.
-Lewis, – fazia tempo, mas as coisas pareciam ter retrocedido anos e lá estava ela, tão jovem novamente. Quase podia ouvir as vozes das irmãs – Não pense que a conhece ainda. Conhecia, mas fazem dez anos já. Ela cresceu, nós crescemos. Tempo demais.
-Ela nunca esqueceu, não é? – Onde acharia coragem para encará-la?
-Nunca. Suas histórias sempre estarão com ela. Pena ter que ser assim. Mas, não se culpe, aconteceria mais hora, menos hora. – ela suspirou, dando-lhe as costas.
A poucos metros dele, virou-se novamente:
-Lewis, se encontrá-la… Fuja. Não pense em nada, apenas fuja. Esqueça-se da menina Alice que um dia você conheceu. Ela não existe mais.
-E é tudo minha culpa – murmurou para si, assim que não mais ouviu os passos de Lorina escada abaixo.

Parecia ter o triplo de sua idade. Resmungava como um velho. Pensava sempre nos fatos passados, pensava sempre em Alice. Todos lhe diziam que ele era jovem demais para estar assim.
Se ele tivesse ficado por perto, ela teria melhorado? Se não a tivessem obrigado a se casar, ela teria feito aquilo ainda assim? Não era fácil prever o que se passaria pela cabeça dela, o que desequilibrara tudo.
Era tarde. Tarde de Junho, 1970. Tarde demais para ela.
Chegava em casa. Tinha ido a pé mesmo, queria pensar. O portão estava escancarado e ele ouviu um chamado muito baixo vindo do fim da rua.
Margareth e David, dois dos empregados da casa, pareciam estar esperando por ele. Percebeu que eles se preparavam para correr a qualquer momento. Margareth tinha o vestido manchado de sangue.
-Pegou Diana e Arnold, e o senhor tem que…
Mas ele não estava mais ouvindo. Lewis imediatamente entendeu. Ela estava lá, estava lá!
Correu para dentro da residência, ainda ouvindo os gritos de alerta dos dois lá fora. Logo a polícia chegaria e talvez ele nunca mais a visse…
-Alice! – gritou a plenos pulmões, risonho. Por um momento, achou que poderia salvá-la, poderia ajudá-la, trazê-la de volta! – Alice!
Procurou por toda a casa, até avistá-la no jardim de inverno. Uma voz gritava dentro de Lewis “Fuja enquanto ainda há tempo!”, porém não havia ninguém que pudesse colocar juízo em sua cabeça agora.
-Grite até ficar rouca – disse para si mesmo, ignorando tudo. Não havia mais nada no mundo, só o jardim de inverno e Alice encostada em alguma árvore qualquer com um machado na mão. Ela ficava linda mesmo com sangue seco no rosto, nas mãos e nas pernas. Seus olhos azuis eram lindos, mesmo queimando em insanidade! Ela parecia um anjo. Mesmo que fosse um anjo caído, ainda era um anjo, não era?
Ela estava se aproximando. Cada vez mais próxima. Ergueu a lâmina para ele e somente aí ele percebeu o perigo.
Era tarde. Tarde de Junho, 1970. Tarde para salvar Alice, o grande amor de sua vida. Tarde demais para salvar-se…

-X_X_X_X_X_X_X-

N/A: Golden afternoon se refere, se não me falha a memória, à uma tarde em que Lewis Carroll esteve contando histórias à Alice Lidell e suas duas irmãs (Lorina e Edith). Bom, até eu pegar meus exemplares de Conde Cain e achar o lugar onde essa informação está, vai demorar muito, então, não vou dar certeza. É uma “Universo Alternativo” muito básica e bem batida, mas ficou melhor que a dos comprimidos, né? ;P
Bom, obrigada por ler e até a próxima!

4.”Monstros lá fora”

Mais uma noite insône. Sabia que se nada fizesse, ia ser como todas muitas noites das quais tinha lembrança: Ficar chorando, apavorada e encolhida em um canto.
Não era nada produtivo, e por isso mesmo fazia cerca de seis meses que começara a ler compulsivamente para não precisar pensar em sua fobia da noite, do escuro, de qualquer coisa da qual não se lembrava, mas que talvez soubesse há 3 anos atrás. Se recusava a usar o computador, se recusava a ligar a televisão na sala, e, se houvesse alguém em casa naquela noite, não iria acordá-las.
Não que ela não dormisse. Dormia, mas só depois da três da matina, e isso se ela estivesse com sorte.
Não queria sair dali, mesmo que não houvesse nada na sala, não queria pagar para ver. Algo em sua mente a impedia de tudo. Era algum tipo de trauma que não conseguia lembrar, mas não a deixava sair, não a deixava viver. Como não lembrar de tal fato?
Deveria ser um daqueles casos em que a mente bloqueava algumas lembranças cruéis. Se era uma tentativa de mantê-la lúcida, dera muito errado, porque ela estava enlouquecendo.
Ecoava em sua cabeça, quando ela estava assim, sozinha e desocupada, as mesmas perguntas daqueles que a cercavam:
“Por que você não sai com a gente hoje à noite?”
“Por que você sempre vai embora com tanta pressa?”
Ou, então, as palavras de incentivo, sempre as mesmas:
“Não se preocupe, nada vai acontecer. Divirta-se”
“Não tem nada lá fora, não tem porque você se preocupar.”
E isso sempre a lembrava do porque nunca contava aquilo a ninguém. Ela já até podia ouvir, quando pensava em falar, a mesma pergunta que, muitas vezes, fez a si mesma: “Por que você não procura um psicologo?”.
Porque não. Não saio, não vou me divertir, me recuso a dizer isso a alguém! Quem acreditaria em sua reposta, em seus medos, em seus relatos? Quem iria acreditar, quem poderia levá-la a sério quando ela dissesse que não saía à noite porque havia monstros lá fora?
Monstros que eram como humanos – e talvez fossem só humanos mesmo, mas isso não os tornava menos atrozes – e com os quais ela sabia que não podia lutar. Talvez já tivesse tentado, quem poderia dizer? Quem a conhecera há 3 anos para poder responder a tal questão?
Não se lembrava, mas todo seu ser sabia – e lhe gritava – que não deveria sair à noite, que não devia ficar no escuro, que não estava segura em outros lugares senão ali. Podia não saber de nada do que ocorrera há 3 anos (um grande branco no meio de sua história), mas ela sabia que tinham monstros lá fora…
E eles a queriam. E como a queriam.

Névoa Envenenada

N/A: Criei esse conto na escola, há 2 anos. Eu estava mesmo na onda “Conde Cain”, dá pra ver claramente! *-* Bons tempos aqueles! Que saudade do Cain i—i
Pode ser que venha continuação por aí. Sempre quis dar continuidade! *—* Quem sabe agora?
Por enquanto, é um texto só pra estreiar o blog. Acho que mudei muito desde quando o escrevi, então, não se assustem! /rsrs/
Bom, aproveitem! Aguardo comentários com sugestões e críticas CONSTRUTIVAS!
Obrigada desde já e até breve!

 

Névoa envenenada

Junho de 1840, Londres, na Inglaterra Vitoriana.
Uma poderosa família de duques se reúne para o velório de Justine, uma senhora reclusa que vivia em seu ateliê, tentando terminar um certo quadro, que não permitia que ninguém visse.
A morte da senhora estava sendo muito comentada, por desconfiarem que ela foi assassinada.
Entre os familiares, tão frios e ambiciosos, o assunto era a herança.
O filho mais velho de Justine, Joseph, não se conformava com o fato da mãe ter deixado tudo para Griford, o único filho de sua irmã caçula.
-Isso só pode ser falso! – bradou, jogando os papéis sobre a mesa.
-Acha mesmo que isso seja falso, Joseph? – questionou um dos primos, do outro lado do cômodo.
-Penso que sim.Não tinha porque ela deixar tudo para ele!Eu sou o filho mais velho e tudo aqui é meu por direito!
-Ela fez bem em não lhe deixar nada! – uma senhora de uns cinqüenta anos levantou-se.
-A senhora ficará contra mim, tia Eleonora?
-Todos aqui sabem que você queria, mesmo, a herança.Não se importava nem um pouco com a minha irmã!
-Por favor, senhora minha tia, não diga bobagens!
-Se ela estivesse morta, você sairia lucrando!
-Está me acusando?Eu seria incapaz de mata-la!
-Por dinheiro você é capaz de tudo! – retrucou Eleonora.
Não demorou muito e todos estavam discutindo e se acusando.
Até que uma moça, alta, de uns trinta e poucos anos, olhos verdes e expressivos, de longos cabelos negros, adentra o cômodo.É recebida friamente por Eleonora:
-Está atrasada, Merediana.
-Eu sei.Sobre o que falavam? – questionou, em tom simpático.
-Estávamos comentando sobre como Joseph lucraria se minha irmã morresse. – ironizou a senhora.
-Não admito que me acuse desse jeito! – defendeu-se o homem.
-Acho que nossa tia tem razão.Soube que esteve aqui durante toda a última semana de vida da tia Justine. – comentou Merediana.
-Está inventando coisas. – disse, calmo.
-Você e aquele pupilo, digamos assim, de sua mãe.Como era o nome dele mesmo? – continuou, pensativa.
-Como sabe disso? – tia Eleonora surpreendeu-se.
-Todos têm seu preço, minha tia. – falou, com um sorriso sarcástico.
-Estão a me acusar, mas nem desconfiaram de Griford!
-Ora, Joseph!Não adianta envolve-lo nessa história!
-Estamos aqui, preocupados em achar um culpado e nem cogitamos o suicídio. – sugeriu alguém.
-Ai, meu Deus! – uma jovem de cabelos loiros, presos em um coque, levantou-se, apavorada – Isso é um pecado mortal!
-Anne, contenha-se! – ralhou Eleonora, tentando disfarçar o espanto.
-Tia Justine era muito religiosa, não faria isso. – tornou a dizer Anne.
-Era.Até a filha morrer. – corrigiu Merediana.
-Eu me recuso a acreditar nisso! – Eleonora estava pálida.
-Não creio que ela tenha feito algo assim. – comentou Merediana.
-Se pretende me acusar, desista! – disse Joseph – Pela última vez, não estive aqui na última semana de vida de minha mãe!
-Torno a dizer que esteve aqui, sim.Pergunte a qualquer um que trabalha ou reside aqui…
Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, uma criada entra, esbaforida e sem cor:
-O ateliê está em chamas!E há alguém lá dentro!
Foi um Deus-nos-acuda!Gente correndo de um lado para o outro, algumas pessoas chegaram a desmaiar, mas, no final, ninguém se feriu e tudo acabou bem.Para alguns…
No meio da confusão Joseph sumiu. Foi encontrado por um dos criados, morto.Tinha sido suicídio.
-Quer prova maior que essa? – foi o que disse Merediana, quando soube.
O ateliê foi totalmente destruído.A polícia chegou à conclusão de que alguém ateou fogo no lugar.A criada que alegou ter visto alguém lá, disse não saber de quem se tratava.
Quanto àquele quadro, não se sabe se foi destruído pelo fogo ou levado pelo indivíduo que invadiu o ateliê.
Afinal, por que Justine não permitia que ninguém visse o que estava pintando?Teria sido por causa do quadro que a assassinaram?Existem mais coisas por trás disso?
São perguntas que somente o tempo, talvez nem ele, nem ninguém, pode responder.

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