Olhando para as visitas de meu blog (depois de muito tempo longe dele), percebo que “Cidade Dorme” tem sido um dos posts mais vistos e, suponho, um dos mais interessantes.
É, eu também gostei dele e, se continuar assim, talvez possa ganhar uma continuação. Não sei se vai, mas isso seria muito interessante, afinal.
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N/A: “Cidade Dorme” é uma variação da brincadeira “Detetive-Delegado” (ou ao contrário @_@’). Achei mais legal usar essa brincadeira de base pra história, parece mais dinâmico, mais complexo e mais divertido. Bom, mas Detetive-Delegado também é legal, principalmente pra se jogar no intervalo
Se alguém tiver curiosidade, olhe na Wikipédia, mas a primeira parte do jogo será explicada aqui, e as outras partes… Quem sabe não rola uma continuação?
Bom, um pavoroso Dia das Bruxas pra todos! E bota pavoroso nisso, já que hoje nós descobriremos quem irá governar nossa pobre terrinha… Independente do resultado, seria pavoroso, horroroso e tenebroso. Ô vida bandida!
E vamos em frente!
“O Juiz fala: “Cidade Dorme” e todos fecham os olhos.”
Era noite de Dezembro, 1988.
Tereza largou-se no sofá de veludo verde-escuro e se espreguiçou como um gato. Encarou a televisão e sua imagem monocromática, ansiosa por mais um capítulo de “Vale-Tudo”. Mas exatamente naquele dia as horas pareciam demorar a passar!
Quase cochilava quando o único telefone da casa tocou (N/A: Era muito difícil conseguir uma linha na época, pois esse serviço não tinha sido privatizado -acho-. Demorava um tempão até você conseguir uma só e olhe lá!), estridente, na mesinha de canto atrás de si. Deu um pulo, virando-se para o aparelho.
“Era só o que me faltava!” – pensou, incomodada, enquanto puxava o fone para perto do ouvido – Alô?
-Tereza? – aquela voz ela nunca ouvira, tinha certeza daquilo!
-Pois não? – questionou, receosa.
-Você quer brincar de Cidade Dorme (N/A: Não sei se essa brincadeira já existia ou se tinha esse nome na época, mas, qualquer coisa, mudo a data.) com a gente?
-Como? – tinha certeza que só podia ser piada! Mas, quem em sã consciencia desperdiçava tempo fazendo aquilo? – Isso deve ser um engano…
-Não é, Tereza. Carla te convidou na última semana de aulas e eu tenho certeza que você virá.
-Ah, sim! Está explicado! Sandra, vai se ferrar, entendeu?! Por que você não pára de encher o saco dos outros e vai dar em cima do namorado de alguém?
-E quem disse que eu sou a Sandra? – a voz mudou do outro lado da linha. Agora era um rapaz falando, mas Tereza ainda não sabia ao certo de quem se tratava! – Está decidido, já sei o que você vai ser! Tenho certeza que a Elizabete vai adorar saber que você vem jogar com a gente também, Tê!
-A Bete? – a moça sentiu o sangue gelar. Engoliu em seco e tornou a falar, a voz baixa e inconstante – A Bete não pode estar aí… Ela disse que não…
-Não viria? Até parece que você não conhece sua própria irmã. – aquela risada maníaca fez com que todos os pêlos de seus braços e pernas se arrepiassem – Você sabe onde nos encontrar. Venha logo, nós mal podemos esperar!
-Q-Quem está falando? – questionou, a voz tremendo.
-Por que você não vem e descobre?
O silêncio do outro lado da linha. O silêncio em sua cabeça. O telefone ao chão. O grito de “Mãe! A Bete fugiu!” entalado na garganta. Dor.
Alisou os cabelos com as mãos trêmulas, sua visão turvada pelas lágrimas. Aquilo não era só mais um trote, afinal? Se era só brincadeira, por que ela estava sentindo tanto medo?
Ela permaneceu estática pelo que pareceram horas, mas tinham se passado apenas alguns minutos quando a campainha tocou. Suas pernas mal conseguiam sustentá-la e Tereza quase caiu diante dos dois à soleira da porta aberta.
Naquele momento, a frase “Nunca vi mais gordo” fez todo o sentido do mundo para ela. Um rapaz ruivo, alto e forte, com uma barba rala, e uma moça magrela, de longos cabelos lisos, tingidos de um tom de louro puxado para o cobre, parados bem diante dela como se a conhecessem há anos.
-’Cê tá bem, cherri? Quer ajuda? – perguntou a jovem, fazendo menção de segurá-la.
-E-eu estou bem, obrigada. – ela encostou-se na parede – E vocês seriam…?
O ruivo abriu a boca para falar, mas o telefone tocou novamente e a garota pensou que desmaiaria. Chegou até a ver o chão se aproximando antes de ser segurada pelo moço.
-Solange, atenda. – falou ele, mecanicamente, aparentemente calmo.
-É pra já!
-Não! – Tereza se desvencilhou do outro e correu até o aparelho, como se não estivesse quase perdendo a consciência há segundos atrás. Hesitou por um minuto, a mão estendida para o fone.
-Posso ouvir também? – questionou timidamente aquela que fora chamada de Solange.
-Po-pode. – gaguejou, sem ter certeza se aquilo era certo. Puxou o telefone com violência para perto do ouvido, enquanto a outra se postava a seu lado – A-alô?
-Tê? Tereza? – aquela voz ela conhecia!
-BETE! Bete, pelo amor de Deus, onde você está?
-Ah, Tê, ‘cê não sabe como eu fico feliz de falar contigo! Tê, por tudo o que é mais sagrado, você precisa ajudar a gente! Algo terrível, Tê, terrível! Você precisava ter visto… Um horror! – ela falava muito rápido, a voz embargada.
-O que é um horror? Onde você está? – ela tinha certeza que estava gritando.
-Você tem que vir, Tê. Tem que vir…
-Por quê? Elizabete!
-Mana, socorro… – e, de repente, a ligação tinha caído!
-RAIOS! – berrou, recolocando o fone no gancho, irada.
Tereza teve de se sentar no braço do sofá para não cair. O ruivo havia se aproximado também, olhando fixamente o aparelho como se soubesse que ele voltaria a tocar em breve.
-Franz… – a outra moça murmurou, ansiosa.
-Só um segundo – respondeu o ruivo.
E, do nada, o telefone estava tocando de novo! Tereza nunca odiara tanto aquela coisa como ela odiava agora. Atendeu prontamente:
-Quem é agora? – perguntou com raiva.
-Cidade dorme. – outra voz que ela não reconhecia.
-Quem é? – perguntou entre os dentes.
-O juiz, ora. E como sendo o juiz, eu determino que vocês três – Pronto! A coisa sabia que havia mais 2 pessoas ali! – Franz, Solange e Teresa, serão nossos detetives, juntamente com…
Ela não estava mais ouvindo. Havia um zumbido atordoante em seus ouvidos e as formas da sala começaram a escurecer e escurecer…
…
-Pelo amor de Deus, me diga que eu estou sonhando. – murmurou para si mesma assim que abriu os olhos e se viu no banco de trás de algum carro.
-Sinto muito. Se eu disser que preciso que você venha comigo – começou Franz, ignorando o pigarro de Solange, que estava no banco do motorista com o olhar fixo à frente – Conosco sem te explicar nada agora, você viria?
-Eu tenho escolha? Já estou mesmo a caminho de Deus sabe onde!
-Tem. Você pode se recusar a vir, mas aí ele virá atrás de você.
-Droga. Isso parece um filme de terror barato. – resmungou, confusa – Está bem. Estamos indo pra onde e estamos atrás do que?
-Rá! Você não vai nem acreditar, cherrizinha, não vai mesmo – comentou a moça de cabelos tingidos, encarando-a pelo retrovisor. – Pergunte agora quantos de nós sairão vivos ou inteiros de lá. Isso é que é pergunta!
-Por quê?
-Bom, digamos que isso não é só um psicopata. E digamos também que não é só um – começou Franz, como se não soubesse o que dizer. Ele encarou Solange – Se forem só três deles, estamos com pouca sorte já. Aposto que Adriana e Marcelo já estão lá, só espero que estejam lá vivos.
-Céus! O que está acontecendo? – gritou Tereza, impaciente e apavorada.
-Assassinos, acordem e matem. – soprou o ruivo, mordendo o lábio inferior com força.
Ela balançou a cabeça negativamente, como que para despertar de um sonho ruim. Mas aquilo não era um sonho. A cidade ainda dormia. O jogo estava apenas começando.

