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N/A: Depois de séculos de sumiço, cá estou. Voltei agora com um projeto do meu tipo favorito: histórias longas com vários capítulos! *-*
Essa começou com uma proposta de redação que mexeu com a minha cabeça de um jeito! Demorei meses até conseguir o início ideal, e, depois de mais alguns meses, trago o primeiro capítulo para o blog.
Críticas construtivas e sugestões são muito bem-vindas! ;)
Tenham uma boa leitura e um ótimo domingo!

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Síndrome de Estocolmo

Parte I – A inspiração

Capítulo 1 – Grettha: livros, música e manhãs de outono.

Grettha Romano Pena, 18 anos completados naquele mesmo dia, e toda uma vida pela frente.
Ah, toda uma vida pela frente! As pessoas não entendem toda a angústia que essa frase carrega. Eu não espero mais que entendam.
Eu tinha quatorze anos quando minha família morreu e eu fui afastada de meu irmão, o único que me entenderia, o único de quem eu precisava. Ainda dói, mas é preciso aprender a conviver com isso.
Eu perdi tudo! Não só aqueles que o incêndio levou, meus pais e minha irmãzinha, mas aqueles que a tragédia varreu. Cadê a família de nosso pai? Onde foram parar os meus amigos, os amigos de meu irmão (Nesses dois casos, existe ainda um ou dois que tentam não nos perder), e todos aqueles que juraram nunca nos deixar? Cadê nosso futuro? E onde colocaram nossa sanidade, nossa alegria?
Mas, é preciso aprender a conviver com isso também.
Confesso que viver com a Tia Verinha não ajudou em nada, afinal, ser tratada todo o tempo como investimento é algo extremamente desagradável. Não que ela se importe com o que eu sinto ou com o que eu acho, seja sobre isso, seja sobre qualquer outra coisa. A única coisa que importa a ela é que eu continue sendo produtiva e gaste o mínimo possível.
Não que ela tenha me negado alguma coisa. E eu não estou reclamando de tudo o que ela já me forneceu sem que eu pedisse, como o melhor colégio, o melhor cursinho, o melhor convênio, um teto e comida… Só que depois eu vou pagar tudinho, com juros e correção monetária. A cretina tem tudo anotado. Tem vezes que eu realmente me sinto tentada a atear fogo aos livros e a ela também.
Tudo bem, ela ficou comigo e eu reconheço e agradeço tudo o que ela já me fez de bom. Porém, ela também já me fez muito mal. Talvez mais mal que bem… E eu não nego que lhe tenho mágoa. Talvez até a odeie, eu não sei, acho que dizer isso com certeza soaria forte demais e anularia tudo o que já disse.
Ela não pode reclamar se os outros acham-na uma velha ossuda, mesquinha, cinzenta e desagradável, porque é exatamente assim que ela parece – e assim que ela faz questão de ser.
Eu não tenho nem como expressar a falta que eles me fazem! Inclusive meu irmão, que trabalha tanto que mal tem tempo de lembrar, a ele e a mim também, que está vivo.
Mas eu nunca sinto tanto o impacto da ausência de minha família como nas datas felizes. Natal, Ano Novo, meu aniversário, os aniversários deles… Datas em que me lembro que nunca mais sentirei o conforto ou a segurança ou o amor que eu tinha quando estava com meus pais e minha irmãzinha. Tentar imaginá-los em um lugar bonito, onde não há dor ou maldade, não me conforta, simplesmente porque eu não sou capaz de acreditar nisso.
Pensar em Fábio de nada ajuda. Eu sei que se eu assumir que o vejo, mesmo que raramente, Tia Verinha vai cair matando, não vai ser em cima de mim, porque ela sabe que eu aguento o tranco. Ela vai pra cima dele, e isso eu não posso aceitar. Não suporto nem pensar!
Ele não merece ser mais prejudicado do que já foi. O Fah trabalha como um condenado pra ganhar uma ninharia, enquanto junta tudo o que pode pra pagar a faculdade que estava praticamente garantida quando nossos pais morreram (Ele ia passar… Agora ele não teria dinheiro nem pra ir do lugar onde ele está morando até metade do caminho pro campus).
Falar nele sempre me leva ao meu velho, porém persistente, pesadelo. Vivo esperando pelo dia em que vou acordar novamente em um quarto de hospital, Tia Verinha virá em minha direção, sustentando aquele semblante de quem está ultrajada com a minha demora em me recuperar de algum acidente terrível, e, antes que eu possa me situar direito, ela irá disparar sem nem um pingo de piedade:
-O imprestável do seu irmão morreu. E não faça essa cara de choro pra mim! Nem tente se fazer de coitadinha, porque eu sei muito bem a cobra que você é!
Ela lançará sobre mim aquele mesmo olhar que D. Flávia lança sobre Dorotéia quando a mesma vai procurá-la, como se eu fosse suja, indigna, como se eu tivesse culpa por tudo o que me aconteceu…
E eu tenho toda a vida pela frente! Em dias como hoje, essa possibilidade me mata!
Apesar dos pesares, as coisas parecem ter melhorado desde que cheguei. Eu voltei a fazer tudo aquilo que eu gostava, e já até consigo ouvir a maior parte da minha playlist sem chorar!
É verdade que continuo terrivelmente destruída e sozinha, mas sei que vou sobreviver a praticamente qualquer obstáculo que coloquem em meu caminho.
Só que… Às vezes, sinto que não existe rumo para mim. Não quero fazer Advocacia, por mais que minha tia deseje ardentemente que eu faça. E mesmo cedendo deliberadamente, faço tudo o que posso para não chegar a uma universidade pública como ela gostaria.
Tem vezes que sinto como se soubesse desde o começo que nunca vou prestar para vestibular nenhum novamente. É como se eu fosse sumir antes disso. É só um pressentimento.
E, quando penso em sumir, penso em uma pessoa muito importante para mim. Uma pessoa que simplesmente sumiu, deixando para mim apenas suas lembranças e umas poucas coisas que guardo em uma caixa com todo o carinho, todo o zelo que existe. Tudo o que ele me deixou está numa caixa não porque não suporte os sentimentos e as memórias que eles me fazem reviver, mas porque quero preservá-los da melhor forma possível. E também para que eu sempre possa tê-lo por perto, não perdido por aí, aos pedaços, mas inteiro e ao meu alcance.
Hoje é meu aniversário, e me dói pensar que vou passá-lo sozinha.
Eu só sei que não quero ficar aqui, trancada no meu pequeno quarto, remoendo memórias que façam a vida parecer pior do que é. Então, imediatista como sou agora, pego minha bolsa e um casaco qualquer e corro para o primeiro lugar que me vem à mente. E, nesse momento, me pergunto se você estará lá.

N/A: “Cidade Dorme” é uma variação da brincadeira “Detetive-Delegado” (ou ao contrário @_@’). Achei mais legal usar essa brincadeira de base pra história, parece mais dinâmico, mais complexo e mais divertido. Bom, mas Detetive-Delegado também é legal, principalmente pra se jogar no intervalo ;)
Se alguém tiver curiosidade, olhe na Wikipédia, mas a primeira parte do jogo será explicada aqui, e as outras partes… Quem sabe não rola uma continuação? :)
Bom, um pavoroso Dia das Bruxas pra todos! E bota pavoroso nisso, já que hoje nós descobriremos quem irá governar nossa pobre terrinha… Independente do resultado, seria pavoroso, horroroso e tenebroso. Ô vida bandida!
E vamos em frente! ;)

“O Juiz fala: “Cidade Dorme” e todos fecham os olhos.”

Era noite de Dezembro, 1988.
Tereza largou-se no sofá de veludo verde-escuro e se espreguiçou como um gato. Encarou a televisão e sua imagem monocromática, ansiosa por mais um capítulo de “Vale-Tudo”. Mas exatamente naquele dia as horas pareciam demorar a passar!
Quase cochilava quando o único telefone da casa tocou (N/A: Era muito difícil conseguir uma linha na época, pois esse serviço não tinha sido privatizado -acho-. Demorava um tempão até você conseguir uma só e olhe lá!), estridente, na mesinha de canto atrás de si. Deu um pulo, virando-se para o aparelho.
“Era só o que me faltava!” – pensou, incomodada, enquanto puxava o fone para perto do ouvido – Alô?
-Tereza? – aquela voz ela nunca ouvira, tinha certeza daquilo!
-Pois não? – questionou, receosa.
-Você quer brincar de Cidade Dorme (N/A: Não sei se essa brincadeira já existia ou se tinha esse nome na época, mas, qualquer coisa, mudo a data.) com a gente?
-Como? – tinha certeza que só podia ser piada! Mas, quem em sã consciencia desperdiçava tempo fazendo aquilo? – Isso deve ser um engano…
-Não é, Tereza. Carla te convidou na última semana de aulas e eu tenho certeza que você virá.
-Ah, sim! Está explicado! Sandra, vai se ferrar, entendeu?! Por que você não pára de encher o saco dos outros e vai dar em cima do namorado de alguém?
-E quem disse que eu sou a Sandra? – a voz mudou do outro lado da linha. Agora era um rapaz falando, mas Tereza ainda não sabia ao certo de quem se tratava! – Está decidido, já sei o que você vai ser! Tenho certeza que a Elizabete vai adorar saber que você vem jogar com a gente também, Tê!
-A Bete? – a moça sentiu o sangue gelar. Engoliu em seco e tornou a falar, a voz baixa e inconstante – A Bete não pode estar aí… Ela disse que não…
-Não viria? Até parece que você não conhece sua própria irmã. – aquela risada maníaca fez com que todos os pêlos de seus braços e pernas se arrepiassem – Você sabe onde nos encontrar. Venha logo, nós mal podemos esperar!
-Q-Quem está falando? – questionou, a voz tremendo.
-Por que você não vem e descobre?
O silêncio do outro lado da linha. O silêncio em sua cabeça. O telefone ao chão. O grito de “Mãe! A Bete fugiu!” entalado na garganta. Dor.
Alisou os cabelos com as mãos trêmulas, sua visão turvada pelas lágrimas. Aquilo não era só mais um trote, afinal? Se era só brincadeira, por que ela estava sentindo tanto medo?
Ela permaneceu estática pelo que pareceram horas, mas tinham se passado apenas alguns minutos quando a campainha tocou. Suas pernas mal conseguiam sustentá-la e Tereza quase caiu diante dos dois à soleira da porta aberta.
Naquele momento, a frase “Nunca vi mais gordo” fez todo o sentido do mundo para ela. Um rapaz ruivo, alto e forte, com uma barba rala, e uma moça magrela, de longos cabelos lisos, tingidos de um tom de louro puxado para o cobre, parados bem diante dela como se a conhecessem há anos.
-’Cê tá bem, cherri? Quer ajuda? – perguntou a jovem, fazendo menção de segurá-la.
-E-eu estou bem, obrigada. – ela encostou-se na parede – E vocês seriam…?
O ruivo abriu a boca para falar, mas o telefone tocou novamente e a garota pensou que desmaiaria. Chegou até a ver o chão se aproximando antes de ser segurada pelo moço.
-Solange, atenda. – falou ele, mecanicamente, aparentemente calmo.
-É pra já!
-Não! – Tereza se desvencilhou do outro e correu até o aparelho, como se não estivesse quase perdendo a consciência há segundos atrás. Hesitou por um minuto, a mão estendida para o fone.
-Posso ouvir também? – questionou timidamente aquela que fora chamada de Solange.
-Po-pode. – gaguejou, sem ter certeza se aquilo era certo. Puxou o telefone com violência para perto do ouvido, enquanto a outra se postava a seu lado – A-alô?
-Tê? Tereza? – aquela voz ela conhecia!
-BETE! Bete, pelo amor de Deus, onde você está?
-Ah, Tê, ‘cê não sabe como eu fico feliz de falar contigo! Tê, por tudo o que é mais sagrado, você precisa ajudar a gente! Algo terrível, Tê, terrível! Você precisava ter visto… Um horror! – ela falava muito rápido, a voz embargada.
-O que é um horror? Onde você está? – ela tinha certeza que estava gritando.
-Você tem que vir, Tê. Tem que vir…
-Por quê? Elizabete!
-Mana, socorro… – e, de repente, a ligação tinha caído!
-RAIOS! – berrou, recolocando o fone no gancho, irada.
Tereza teve de se sentar no braço do sofá para não cair. O ruivo havia se aproximado também, olhando fixamente o aparelho como se soubesse que ele voltaria a tocar em breve.
-Franz… – a outra moça murmurou, ansiosa.
-Só um segundo – respondeu o ruivo.
E, do nada, o telefone estava tocando de novo! Tereza nunca odiara tanto aquela coisa como ela odiava agora. Atendeu prontamente:
-Quem é agora? – perguntou com raiva.
-Cidade dorme. – outra voz que ela não reconhecia.
-Quem é? – perguntou entre os dentes.
-O juiz, ora. E como sendo o juiz, eu determino que vocês três – Pronto! A coisa sabia que havia mais 2 pessoas ali! – Franz, Solange e Teresa, serão nossos detetives, juntamente com…
Ela não estava mais ouvindo. Havia um zumbido atordoante em seus ouvidos e as formas da sala começaram a escurecer e escurecer…

-Pelo amor de Deus, me diga que eu estou sonhando. – murmurou para si mesma assim que abriu os olhos e se viu no banco de trás de algum carro.
-Sinto muito. Se eu disser que preciso que você venha comigo – começou Franz, ignorando o pigarro de Solange, que estava no banco do motorista com o olhar fixo à frente – Conosco sem te explicar nada agora, você viria?
-Eu tenho escolha? Já estou mesmo a caminho de Deus sabe onde!
-Tem. Você pode se recusar a vir, mas aí ele virá atrás de você.
-Droga. Isso parece um filme de terror barato. – resmungou, confusa – Está bem. Estamos indo pra onde e estamos atrás do que?
-Rá! Você não vai nem acreditar, cherrizinha, não vai mesmo – comentou a moça de cabelos tingidos, encarando-a pelo retrovisor. – Pergunte agora quantos de nós sairão vivos ou inteiros de lá. Isso é que é pergunta!
-Por quê?
-Bom, digamos que isso não é só um psicopata. E digamos também que não é só um – começou Franz, como se não soubesse o que dizer. Ele encarou Solange – Se forem só três deles, estamos com pouca sorte já. Aposto que Adriana e Marcelo já estão lá, só espero que estejam lá vivos.
-Céus! O que está acontecendo? – gritou Tereza, impaciente e apavorada.
-Assassinos, acordem e matem. – soprou o ruivo, mordendo o lábio inferior com força.
Ela balançou a cabeça negativamente, como que para despertar de um sonho ruim. Mas aquilo não era um sonho. A cidade ainda dormia. O jogo estava apenas começando.

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