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Divagando III

Estou cancelando o projeto dos 50 Títulos. Acho que estou me repetindo e, além disso, estou sem cabeça pra pensar em coisas novas… Bom, desculpem.
Prometo tentar não parar de postar. Daqui pra frente, histórias mais longas e até fanfics aparecerão por aqui.

14. O Rebanho

N/A: Texto muuuito antigo, de 23/03/2010. Eu achei-o pesado quando o fiz, confesso que o criei em um momento de muita revolta. O tempo e a revolta passaram, mas minha opinião sobre a densidade do texto mudou pouco. Só que, agora, eu certamente daria outro desfecho a essa história. (Porém, preferi preservá-la.)
Bom, boa leitura. E podem rir, se quiserem. Agora, depois de tudo, até eu quero rir.

_X_X_X_X_X_X_X_

Massa. Era o que eles eram. Eles eram um rebanho, um bando de animais que diziam aos quatro cantos que pensavam por si só, mas viviam sob o comando inquestionável de seu líder. A Pastorinha e suas ovelhinhas.
Que coisa mais doce e inocente! E a mentira mais deslavada que já vista.
“Pastorinha, o que deseja que pensemos agora?”, perguntaram as ovelhinhas.
“Primeiro, saibam que aqui não temos segredos, nem individualidade, nem podemos fechar nossos desejos e pensamentos em nós. Não escondemos nada de ninguém. Se vocês tiverem um pensamento, devem entregá-lo imediatamente para mim”, falou a Pastorinha, em sua doçura artificial.
“Pensamentos são maus!”, concordaram de pronto.
“Sim, ovelhinhas, pensamentos são maus. Causam tristeza, sofrimento e solidão.”
“O que mais pensamos, Pastorinha?”
“Vocês pensam que toda ovelhinha rebelde que ousar pensar e que queira se fechar para nós, guardando segredos, seja isolada até ela não agüentar mais, para poder pensar bastante no seu erro. Depois, que seja espezinhada psicologicamente e, se ela ainda insistir em ter pensamentos próprios e não se abrir para nós, devemos estraçalhá-la até ela não poder mais se mover.”, disse a Pastorinha, com um sinistro tom de gentileza.
“Devemos matá-la, Pastorinha?”, questionaram novamente, sempre em uníssono.
“Claro que não, minhas amigas ovelhinhas. Devemos fazer com que ela agonize, que ela definhe”, respondeu, com o eterno e falso tom de inocência.
“Fisicamente, amiga Pastorinha?”
“Não, psicologicamente, porque aí, será questão de tempo para ela definhar fisicamente”.
“O que é psicologicamente, Pastorinha?”
“É algo que se tem dentro, ovelhinhas.”, respondeu, vagamente, com sua falsa doçura, “Mas isso causa dor, sofrimento e solidão. Não devemos ligar para isso, ovelhinhas, desde que a gente dê valor a essa vida linda e maravilhosa que levamos unidas, cheia de amor, amizade e sinceridade. Por isso, como eu sempre digo, nunca devemos nos fechar em nós”.
“OOOOH! A Pastorinha é tão sensível, agradável e maravilhosa!”.
Todos os pensamentos e sonhos que as ovelhinhas entregavam à bela e artificial Pastorinha eram avaliados, se fossem razoáveis e favoráveis (como os da maioria das ovelhinhas), ela deixava passar, mas advertia-os para que não ocorresse novamente. Se fossem revolucionários, ela destruía, humilhava e mutilava a responsável.
“Você vai sofrer um pouco agora, mas depois vai me agradecer, porque eu sei o que é melhor para você”, dizia, com sua superficialidade medonha.
Mas, o que a Pastorinha de plástico temia, estava acontecendo. Havia uma ovelhinha negra ali, uma ovelhinha malcriada, que não queria obedecer, que não queria se render. Ela pensava e se calava, e nem a solidão a fez desistir. Chegou o estágio da opressão psicológica. Ela chorava sozinha. Estava sofrendo tanto ao ver que aqueles que pensou serem seus amigos eram monstros horrendos e cruéis. Queria desistir, mas algo dentro dela a impedia, dizendo-lhe que, um dia, todos veriam que ela estava certa, que, um dia, ela sairia dali e poderia caminhar livremente pelo mundo. Livre para pensar, sentir, vivendo como gostaria, sem precisar se fechar para não ser destruída. Ela seria livre. Seria uma vencedora, triunfaria sobre a ignorância dos “amiguinhos” e sobre o despotismo da Pastorinha.
Um dia, ela se ergueu, levantou sua voz e gritou para quem quisesse ouvir:
“Eu não sou uma ovelha. Eu não sou parte dessa massa nojenta. Eu penso sozinha. Eu sinto o que eu quiser, não o que desejam que eu sinta. Eu tenho meus pensamentos, meus sonhos, e eles são só meus! Eu os escondo se eu assim desejar. A partir de agora, eu farei o que eu quiser.” – e todos puderam notar que ela nunca se pareceu com uma ovelha, mas que sempre teve a aparência de um ser humano. Ela era real, parecia feita de carne e osso, e não de plástico e tinta, como a Pastorinha. E, em sua forte humanidade, ela era linda e poderosa, quase reluzia de tão admirável.
Entretanto, nesse momento, todas as ovelhinhas viraram lobos gigantes e horrendos, e a Pastorinha virou um monstro desfigurado e assustador. Juntos, destruíram o corpo e a mente da pobre humana, que não desistiu nem no último segundo.
Ó, Pastorinha, maldita de plástico e tinta, sabia que tuas “amigas” ovelhinhas hão de acabar com tua existência miserável?
Ó, ovelhinhas tolas, quando vão perceber que não valem nada para vossa “amiga” Pastorinha, que vive a usá-los, extorqui-los e controlá-los?
Ó, maldito rebanho, teu único destino é a destruição certa… Sobre ti, triunfarão os destruídos. Vencerão aqueles que, um dia, revoltaram-se contra o choque que deveria traumatizá-los e fazer com que nunca mais pensassem.

Divagando II

”sou uma pessoa que não quer um amor perfeito. quero diversão, aventura!”… Sério? ô_õ
O.k, por que o Google direciona umas perguntas dessas pro meu blog? XD E esse foi o mais estranho até hoje, porque já tiveram outros.
E pior, umas coisas sem relação nenhuma com o blog… O_O’

N/A: Bom, eu tive a ideia pra esse tema há tempos, mas não consegui achar um começo que me agradasse. Descobri-o no dia 19/08 e escrevi tudo numa folha durante o intervalo (no colégio), mas não quis publicar, não gostei do texto, a princípio. Agora que li de novo, achei que ficou bom e que merecia ser postado.
Outro texto denso, mas, mesmo assim, espero que tenham uma boa leitura.
Obrigada pela atenção!

A minha vida inteira eu não tive voz, e agora eu grito. Mas ninguém pode me ouvir. Ninguém nunca mais poderá.
Morrer não é ruim quando você nunca viveu realmente. Mas, nesse momento, dá uma agonia, uma raiva, uma revolta por não ter lutado com toda a força que eu tinha, por não ter vivido com toda a ferocidade que o mundo nos exige.
E dá uma tristeza pensar que vivi como um verme medroso que nunca fez tudo o que podia, tudo o que deveria ter feito para não perecer.
Eu luto agora, em desespero, porque desejo ardentemente a chance de ter a vida que eu mesma abortei com medo da dor! Eu quero – e como quero! – a voz que calei por medo da repressão! Eu quero os dons que ignorei por medo das opiniões! Eu quero os sentimentos que sufoquei por medo daquilo que julguei ser fraqueza!
Não, eu nunca quis mudar. Entretanto, eu também nunca soube o que eu estava jogando fora, nem nunca tive tamanha vontade para fazer tudo diferente!
Eu queria… Não! Eu deveria tê-los obrigado a me ouvir! Deveria tê-los feito calar a boca! Eu deveria… Deveria ter segurado junto a mim tudo o que me pertencia e que eu permiti que me arrancassem!
Oh, Deus! Se ao menos eu pudesse… Se eu ao menos sobrevivesse… Tudo seria diferente!
Não é? Por que não seria, afinal?
Ah, se eu ao menos pudesse…

N/A: Retomando os “50 títulos” após muito tempo ausente. Eu não costumo usar títulos em inglês, mas esse, em especial, me agrada. É o trecho nome de um poema da Mamãe Ganso – trecho muito famoso e bastante usado (Mais informações, na Sessão Curiosidades do blog). Vou ressaltar que não usarei a canção como base, apenas esse pequeno trecho, que significa “E não restou nenhum”.
Boa leitura e obrigada!

Estamos só nós nesta casa. Ela é muito velha e eu me escondo no que um dia foi um armário. Sinto uma aflição imensa ao olhar pela pequena “janela de respiração”, com seu enegrecido gradeado, feito de ligas de metal transversais que se cruzam. Lembra-me filmes de terror. Esse lugar é muito pequeno para conter esse ódio sem precedentes que sinto.
Graças a você, não restou nenhum… Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum consolo, nenhum princípio, nenhum pudor, nenhum misero resquício de bondade ou de lucidez ou de amor. Não restará mais nada quando nos encontrarmos.
Eu sinto como se não pertencesse mais ao Mundo dos Vivos. Minha alma foi embora e restou somente o animal ferido e raivoso. Eu fui me perdendo aos poucos, cada parte dilacerada foi sendo abandonada pelos cantos deste nosso campo de batalha. Em cada trincheira de minha mente, uma lembrança que foi arrancada de mim, uma pessoa que amei demais, um sentimento puro do qual tenho apenas vaga noção.
Talvez almas sejam como estrelas e, quando morrem, em seu lugar surgem buracos negros que sugam tudo o que estiver em seu caminho. Eu suguei vidas para dentro desse meu buraco negro. Vidas que estavam irremediavelmente ligadas à minha e à dela. Eu tenho em minhas mãos o sangue daqueles que amei.
Ah, se ao menos eu pudesse tê-los de volta!
E pensar que tudo começou com uma rivalidade idiota! Agora, virou um pesadelo! Eu estava só tentando me defender… Mas parece que passei daquela fronteira que separa Dr. Jekyll de Mr. Hyde.
Como eu era antes disso? Como eu vivia antes de devorar existências com minha alma maculada e lácera? Eu sinceramente não me lembro. Não há volta, afinal. Jekyll não conseguiu controlar Hyde. E eu não consigo me controlar mais.
Não quero me recuperar. Quero viver com essas mutilações até os meus últimos dias. Não quero nova chance. Quero me afundar em sangue e podridão, até que eles me sufoquem.
Meus sentidos estão alertas como nunca estiveram antes e cada célula do meu corpo pulsa de expectativa. E eu não consigo imaginar como uma pessoa pode viver sem sentir isso, essa adrenalina violenta que consome aos poucos minha sanidade.
Mas, pensando bem (E eu tenho pensado com tanta clareza e rapidez!), só os moribundos sentem isso. Só os mutilados, os corrompidos, os condenados… Só gente como eu sente isso, porque aquela sensação… Aquela emoção de estar vivo… Nunca mais sentiremos.
Agora somos só nós nesta casa, entretanto, amanhã talvez não reste mais ninguém. Eu vou viver, tenha certeza disso. Viver até terminar com essa palhaçada. Depois…
E depois?
Passos no corredor. Meu corpo inteiro se retesa e eu ouço o grito de guerra de meu ser atormentado. Não, não vai restar nenhum miserável da sua raça para contar história!
Espero e espero. Parece uma eternidade agora.
Uma tábua do quarto range e eu emito um som de animal assustado, porque quero que ele pense que estou morrendo de medo, chorando em um canto.
Posso ver seu sorriso. Posso ver você chegando perto do armário E, quando você está bem perto, posso ver a sua cara quando a porta é empurrada com toda a sua força, atingindo esse belo rostinho odioso.
O soalho rangeu quando o corpo bateu no chão. Ele podia nunca mais ter se erguido, mas eu deixei que o fizesse. Era pra fechar com chave de ouro, pensei, com um sorriso a deformar meu rosto.

A tosse faz todo meu tórax doer. Eu venci, mas não vou viver. Não vou e nem quero.
Os ferimentos não doem mais e eu me deixo escorregar pela parede, acomodando-me em um canto. Vejo a luz do sol nascente infiltrar-se no quarto pelas frestas das imensas persianas de madeira.
Meu peito dói porque estou soluçando. Parece que faz séculos que não derramo uma lágrima, e essa é a melhor sensação do mundo.
Eu mereço o pior lugar do Hades, porque não me arrependo do que acabei de fazer. Eu mereceria mesmo que me arrependesse. Mereço, apesar de a dor de meus outros atos ferir-me mais que os cortes.
Não lamento minha morte. Se eu pudesse voltar ao começo, eu mesmo a teria provocado.
As réstias de luz se confundem, se expandem. Não consigo ver. As palavras e pensamentos se embaralham. Não consigo falar. O ar falta e eu o busco em desespero. Não consigo respirar. Não… Não consig…

E não restou nenhum, afinal…

N/A: Desculpem, exagerei. Fiquei até com medo. O_O’ Da próxima vez, vou escrever algo mais alegre, prometo!

Divagando I

Olhando para as visitas de meu blog (depois de muito tempo longe dele), percebo que “Cidade Dorme” tem sido um dos posts mais vistos e, suponho, um dos mais interessantes.
É, eu também gostei dele e, se continuar assim, talvez possa ganhar uma continuação. Não sei se vai, mas isso seria muito interessante, afinal.

11. Estrela

N/A: Outro tema meio clichê, mas vou fazer o possível pra não ficar algo muito comum. Acho que fracassei terrivelmente, mas, depois desse longo período sem escrever, creio que estou seriamente enferrujada!
2011 será um ano um tanto complicado, mas eu juro que vou terminar esses 50 temas! XD
Obrigada por ler e voltem sempre! ;)

“Olho para o céu noturno onde uma estrela reluz sozinha, as demais escondidas por nuvens e mais nuvens de um tom escuro e esquisito que parece marrom. Tento ver por através dessa cortina encardida, em vão.
Nesses momentos, penso em tudo o que há acima de mim, acima dessas nuvens, acima daquela estrela solitária… Há muito mais… Infinitamente mais do que eu consiga imaginar. Isso me faz sentir tão pequenina, mas de forma alguma sinto-me diminuida ou insignificamente, porque eu não me sinto só, mas completamente incluída em… Algo muito maior. É uma sensação tão reconfortante imaginar o que há além de mim e desse lugar, e tudo parecer tão perfeito, tudo fazer sentido. E sentir que eu (Veja só, eu!) faço parte disso!
Volto a olhar ao meu redor e isso faz com que me lembre dos números e das teorias, dos filósofos e dos físicos, e me sinto tão diminuta, tão deslocada. Nada tem significado e nunca estive tão só, tão vazia.
Quem dera ser aquela estrela, que agora me parecia muito menos solitária e muito mais sortuda do que eu.
Mas, estava tarde e eu realmente precisava ir. Lancei um último olhar à estrela e abri um leve sorriso, esperando um dia poder, em Terra, sentir a mesma sensação que ela.”

10. “Quem é você?”

“Querido Diário,

Se alguém me perguntar “Quem é você?”, minha resposta provavelmente seria:
-Hoje eu sou só mais uma garota esquisita e deslocada com uma vida anormalmente chata, que passa os dias com a cara em livros de aventura, de suspense, de romances… Romances violentos, porque sou uma garota que não suporta romances doces, amor verdadeiro, coisas singelas. Elas me ferem como pontas de lança em brasa. Eu sou uma pessoa que odeia ter contato com histórias que nunca irão acontecer com ela, é encantar-se e iludir-se à toa. Uma garota – e tão somente isso – que está triste e perturbada, mas que não sabe porque. E olhe que eu já pensei em mil explicações diferentes!
Uma menina que só observa e observa, mas que não tem coragem de falar nem de agir. Que só fica olhando aquele rapaz que em algum momento, mesmo sem ele saber, deixou-a tão feliz e que, mesmo que ele não saiba, torce por ele, pela felicidade dele, por mais que a felicidade dele seja longe dela. Tão boba, coitada. Ela sabe: ele nunca irá olhar para ela do jeito que ela gostaria. E assim ela vai matando todo o sentimento devagar, pensando em outras coisas para não sentir dor… Isso é o que eu sou hoje.
E se me pedirem uma síntese de quem sou eu, só posso dizer que quem eu sou hoje pode não ser quem eu serei amanhã… Ou não. Afinal, não mudamos o tempo todo? Por hoje, tenho certeza do que sou, mas depois… Eu já não sei.

Me pergunte amanhã, ok?”

N/A: “Cidade Dorme” é uma variação da brincadeira “Detetive-Delegado” (ou ao contrário @_@’). Achei mais legal usar essa brincadeira de base pra história, parece mais dinâmico, mais complexo e mais divertido. Bom, mas Detetive-Delegado também é legal, principalmente pra se jogar no intervalo ;)
Se alguém tiver curiosidade, olhe na Wikipédia, mas a primeira parte do jogo será explicada aqui, e as outras partes… Quem sabe não rola uma continuação? :)
Bom, um pavoroso Dia das Bruxas pra todos! E bota pavoroso nisso, já que hoje nós descobriremos quem irá governar nossa pobre terrinha… Independente do resultado, seria pavoroso, horroroso e tenebroso. Ô vida bandida!
E vamos em frente! ;)

“O Juiz fala: “Cidade Dorme” e todos fecham os olhos.”

Era noite de Dezembro, 1988.
Tereza largou-se no sofá de veludo verde-escuro e se espreguiçou como um gato. Encarou a televisão e sua imagem monocromática, ansiosa por mais um capítulo de “Vale-Tudo”. Mas exatamente naquele dia as horas pareciam demorar a passar!
Quase cochilava quando o único telefone da casa tocou (N/A: Era muito difícil conseguir uma linha na época, pois esse serviço não tinha sido privatizado -acho-. Demorava um tempão até você conseguir uma só e olhe lá!), estridente, na mesinha de canto atrás de si. Deu um pulo, virando-se para o aparelho.
“Era só o que me faltava!” – pensou, incomodada, enquanto puxava o fone para perto do ouvido – Alô?
-Tereza? – aquela voz ela nunca ouvira, tinha certeza daquilo!
-Pois não? – questionou, receosa.
-Você quer brincar de Cidade Dorme (N/A: Não sei se essa brincadeira já existia ou se tinha esse nome na época, mas, qualquer coisa, mudo a data.) com a gente?
-Como? – tinha certeza que só podia ser piada! Mas, quem em sã consciencia desperdiçava tempo fazendo aquilo? – Isso deve ser um engano…
-Não é, Tereza. Carla te convidou na última semana de aulas e eu tenho certeza que você virá.
-Ah, sim! Está explicado! Sandra, vai se ferrar, entendeu?! Por que você não pára de encher o saco dos outros e vai dar em cima do namorado de alguém?
-E quem disse que eu sou a Sandra? – a voz mudou do outro lado da linha. Agora era um rapaz falando, mas Tereza ainda não sabia ao certo de quem se tratava! – Está decidido, já sei o que você vai ser! Tenho certeza que a Elizabete vai adorar saber que você vem jogar com a gente também, Tê!
-A Bete? – a moça sentiu o sangue gelar. Engoliu em seco e tornou a falar, a voz baixa e inconstante – A Bete não pode estar aí… Ela disse que não…
-Não viria? Até parece que você não conhece sua própria irmã. – aquela risada maníaca fez com que todos os pêlos de seus braços e pernas se arrepiassem – Você sabe onde nos encontrar. Venha logo, nós mal podemos esperar!
-Q-Quem está falando? – questionou, a voz tremendo.
-Por que você não vem e descobre?
O silêncio do outro lado da linha. O silêncio em sua cabeça. O telefone ao chão. O grito de “Mãe! A Bete fugiu!” entalado na garganta. Dor.
Alisou os cabelos com as mãos trêmulas, sua visão turvada pelas lágrimas. Aquilo não era só mais um trote, afinal? Se era só brincadeira, por que ela estava sentindo tanto medo?
Ela permaneceu estática pelo que pareceram horas, mas tinham se passado apenas alguns minutos quando a campainha tocou. Suas pernas mal conseguiam sustentá-la e Tereza quase caiu diante dos dois à soleira da porta aberta.
Naquele momento, a frase “Nunca vi mais gordo” fez todo o sentido do mundo para ela. Um rapaz ruivo, alto e forte, com uma barba rala, e uma moça magrela, de longos cabelos lisos, tingidos de um tom de louro puxado para o cobre, parados bem diante dela como se a conhecessem há anos.
-’Cê tá bem, cherri? Quer ajuda? – perguntou a jovem, fazendo menção de segurá-la.
-E-eu estou bem, obrigada. – ela encostou-se na parede – E vocês seriam…?
O ruivo abriu a boca para falar, mas o telefone tocou novamente e a garota pensou que desmaiaria. Chegou até a ver o chão se aproximando antes de ser segurada pelo moço.
-Solange, atenda. – falou ele, mecanicamente, aparentemente calmo.
-É pra já!
-Não! – Tereza se desvencilhou do outro e correu até o aparelho, como se não estivesse quase perdendo a consciência há segundos atrás. Hesitou por um minuto, a mão estendida para o fone.
-Posso ouvir também? – questionou timidamente aquela que fora chamada de Solange.
-Po-pode. – gaguejou, sem ter certeza se aquilo era certo. Puxou o telefone com violência para perto do ouvido, enquanto a outra se postava a seu lado – A-alô?
-Tê? Tereza? – aquela voz ela conhecia!
-BETE! Bete, pelo amor de Deus, onde você está?
-Ah, Tê, ‘cê não sabe como eu fico feliz de falar contigo! Tê, por tudo o que é mais sagrado, você precisa ajudar a gente! Algo terrível, Tê, terrível! Você precisava ter visto… Um horror! – ela falava muito rápido, a voz embargada.
-O que é um horror? Onde você está? – ela tinha certeza que estava gritando.
-Você tem que vir, Tê. Tem que vir…
-Por quê? Elizabete!
-Mana, socorro… – e, de repente, a ligação tinha caído!
-RAIOS! – berrou, recolocando o fone no gancho, irada.
Tereza teve de se sentar no braço do sofá para não cair. O ruivo havia se aproximado também, olhando fixamente o aparelho como se soubesse que ele voltaria a tocar em breve.
-Franz… – a outra moça murmurou, ansiosa.
-Só um segundo – respondeu o ruivo.
E, do nada, o telefone estava tocando de novo! Tereza nunca odiara tanto aquela coisa como ela odiava agora. Atendeu prontamente:
-Quem é agora? – perguntou com raiva.
-Cidade dorme. – outra voz que ela não reconhecia.
-Quem é? – perguntou entre os dentes.
-O juiz, ora. E como sendo o juiz, eu determino que vocês três – Pronto! A coisa sabia que havia mais 2 pessoas ali! – Franz, Solange e Teresa, serão nossos detetives, juntamente com…
Ela não estava mais ouvindo. Havia um zumbido atordoante em seus ouvidos e as formas da sala começaram a escurecer e escurecer…

-Pelo amor de Deus, me diga que eu estou sonhando. – murmurou para si mesma assim que abriu os olhos e se viu no banco de trás de algum carro.
-Sinto muito. Se eu disser que preciso que você venha comigo – começou Franz, ignorando o pigarro de Solange, que estava no banco do motorista com o olhar fixo à frente – Conosco sem te explicar nada agora, você viria?
-Eu tenho escolha? Já estou mesmo a caminho de Deus sabe onde!
-Tem. Você pode se recusar a vir, mas aí ele virá atrás de você.
-Droga. Isso parece um filme de terror barato. – resmungou, confusa – Está bem. Estamos indo pra onde e estamos atrás do que?
-Rá! Você não vai nem acreditar, cherrizinha, não vai mesmo – comentou a moça de cabelos tingidos, encarando-a pelo retrovisor. – Pergunte agora quantos de nós sairão vivos ou inteiros de lá. Isso é que é pergunta!
-Por quê?
-Bom, digamos que isso não é só um psicopata. E digamos também que não é só um – começou Franz, como se não soubesse o que dizer. Ele encarou Solange – Se forem só três deles, estamos com pouca sorte já. Aposto que Adriana e Marcelo já estão lá, só espero que estejam lá vivos.
-Céus! O que está acontecendo? – gritou Tereza, impaciente e apavorada.
-Assassinos, acordem e matem. – soprou o ruivo, mordendo o lábio inferior com força.
Ela balançou a cabeça negativamente, como que para despertar de um sonho ruim. Mas aquilo não era um sonho. A cidade ainda dormia. O jogo estava apenas começando.

N/A: Voltando aos temas sombrios (O que não significa que eu seja assustadora pessoalmente XD)
Bom, só uma sugestão: Ouçam “Fixação” (Kid Abelha). Dá um clima legal >D
Boa leitura, fantasminhas! ^^/

~.~.~.~.~.~.~.~.~

“Ela podia se iludir pensando que várias pessoas lhe davam atenção. Era tudo mentira. Não há mais ninguém, só eu.
Eu que sempre observo ela, que sempre ouço e leio e sigo tudo o que ela diz, escreve e faz. Eu que monitoro todos os passos dela com algo que beira a devoção… Mas não pense que a amo. Eu a odeio tanto, tanto, tanto!
Nem todas as boas lembranças do que vivemos são capazes de aplacar o meu rancor, a raiva que eu sinto quando eu vejo no que ela me tornou… Um ser pequenino, miserável e rastejante que vive literalmente dela! Vive o ar que ela respira, o chão que ela pisa!
Reduzido a nada, reduzido à poeira sobre a qual ela pisa. Vivendo para ela, esperando-a todo o tempo, mesmo sabendo que o final é sempre o mesmo: humilhação. Afinal, quem liga pra poeira?
Eu cansei dessa amor maldito que vive travestido de ódio. Cansei de esperar por ela enquanto tramo mil planos para arruiná-la. Cansei de sonhar com ela, sonhar com um minímo carinho dela, ao mesmo tempo em que desejo ardentemente sua destruição.
Eu queria ter forças para submete-la, reduzi-la a menos que um germe, jogá-la na lama da mesma maneira que ela fez comigo. Queria sentir sua fixação, queria senti-la seguindo meus passos, acompanhando meus atos, sonhando com minha completa ruína, enquanto espera que algum dia eu volte a ter olhos somente para ela… Uma utopia! Uma utopia!
Isso nunca acontecerá…
Não haverá um segundo de paz enquanto ela estiver viva. Tenho que pôr um ponto final nisso.
Esses pensamentos me matam! Acaba comigo pensar que não tenho planos para depois… Pensar que não há vida sem ela. Não sei se consigo. Não sei se posso…
Mas, é preciso. Afinal, até a morte é melhor que isso.”

O telefone toca repetidas vezes. Se eu fingir de morta, talvez ele pare, pensou Lídia, remexendo-se na cama. Entretanto, o aparelho continuou tocando e tocando.
Uma palavra pronunciada entre os dentes. Parecia “baralho”, mas definitivamente não era. Ninguém diria “baralho” com tanta raiva…
Ela tocou o telefone e um mau pressentimento passou por seus dedos e percorreu todo seu corpo como se tivesse acabado de levar um choque. Atendeu.
Tudo rápido demais.
Afonso… Ele morreu…? Foi o que o homem do outro lado da linha lhe dizia? Ele morreu? Homicídio? Não somente isso. Suicídio. Uma sobrevivente.
Mas… Espere! Devia ter ouvido mal.
-Repita, por favor.
E o homem repetiu. Lídia ouvira bem.
Não, não, não! Por favor, não me diga isso… Pelo amor de Deus! É engano! Só pode ser engano! Ele não faria mal a uma mosca! Conhecia-o bem, era sangue do seu sangue, foram criados juntos!
Não era trote, nem brincadeira ou sonho. Afonso estava morto de verdade…
Só percebeu que tinha caído quando sentiu o chão sob seu rosto. Não queria se mexer, deixou que gritassem do outro lado da linha.
Quem sobreviveu? Tinha ouvido vagamente um nome… Era o nome dela, da desgraçada. Desde que ela apareceu, só tinha havido desastres.
Não. Eu só posso estar sonhando… Não pode ser real, pensou Lídia, e o mundo escureceu e sumiu diante de seus olhos. E não importava o quanto ela ignorasse aquilo… Era verdade.

 

~.~.~.~.~.~.~.~.~

N/A: Tinha escrito outra versão disso, mas, a internet caiu e eu perdi… Mas, acho que esse ficou até melhor! Afonso, Lídia… Só falta a Raquel e a Maria de Fátima! XD (#ValeTudo)

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